A Língua francesa, matriz de uma civilização da universalidade

Na ocasião du mês da Francofonia 2019, Sébastien Vittet, Chefe do Serviço de Cooperação e de Acção Cultural da Embaixada de França, volta sobre a longa história da língua francesa, desde a Idade Média, até hoje em dia.

PNG Na idade média, a língua francesa integra uma grande quantidade de dialectos que variam consideravelmente de uma região a outra. A França é desta forma, no século XV, um país bilingue: de um lado, a maioria da população fala a língua francesa vulgar (ou vernacular), que é o idioma usado para as obras-primas da literatura antiga, e do outro o latim, que é o idioma usado pela Igreja, os cientistas e o mundo do ensino. Apesar da pressão para aumentar o uso do francês, essa coexistência prolonga-se até ao século XVII e até mesmo mais tarde no mundo da Universidade e no mundo da Igreja.

Na construção da nação francesa, a expansão da língua francesa e a generalização do seu uso são factores decisivos. A extensão do uso da língua é realizada graças aos progressos da administração e da justiça real pelos quais a vida pública do país era indissociavelmente ligada à utilização escrupulosa da língua para não permitir nenhuma ambiguidade ou incerteza. Não se podia deixar dúvidas acerca da inteligência das decisões de justiça e tudo devia ser feito ou escrito tão claramente que não era necessário solicitar uma interpretação. Contratos, decisões de justiça, comissões, testamentos, actos ou feitos, inquéritos e procedimentos, tudo devia então ser pronunciado, registado e entregue às partes unicamente na linguagem materna francesa e não em qualquer outra.

O firme vínculo com a língua francesa respondia assim a uma exigência ao mesmo tempo política, jurídica e literária.

É ainda essa exigência que levou à criação da Académia francesa em 1635, para proporcionar à unidade do reino um idioma e um estilo que a simbolizam, a cimentam e cujo principal papel é trabalhar para dotar a língua francesa de regras para torná-la pura, eloquente e capaz de tratar as artes e a ciência.
O esplendor e o poder da monarquia francesa, o requinte da cultura, a influência das populações cristãs emigradas levam o idioma francês a expandir-se além-fronteiras e passar a ser a língua da aristocracia e das pessoas cultas em toda a parte norte da Europa, na Alemanha, na Polónia e até na Rússia.

Ela torna-se assim o idioma da diplomacia. Todos os grandes tratados são redigidos em francês ao passo que o império da língua francesa ultrapassa muito rapidamente e de forma ampla o império político e económico da França para conquistar uma posição de liderança e de âmbito mundial.

Nunca antes a língua francesa foi tão falada como hoje. É a única língua materna com o Inglês a ser falada nos cinco continentes. Ela é o bem comum de 36 países que a dominam a vários níveis e o idioma oficial ou co-oficial de 29 países.
Para além dos 300 milhões de falantes actuais (dos quais 59% encontram-se no continente africano), o Observatório da francofonia estabelece a importância dum idioma através cinco principais critérios: a disseminação territorial, o estatuto oficial nas organizações internacionais, o seu ensino como língua estrangeira e a sua qualidade de ferramenta de comunicação entre falantes não nativos e de veículo de expressões culturais diversas. Entre os 536 idiomas identificados para esse estudo, o francês ocupa a terceira posição atrás do Inglês e do Espanhol, muito à frente da língua Alemã, do Russo ou do Japonês ao passo que o Mandarim, idioma mais falado no mundo ocupa apenas a décima posição!

A língua francesa é hoje em dia reconhecida e incontornável. É um meio de acesso à modernidade, um instrumento de comunicação, de reflexão e de criação que favorece o intercâmbio e a partilha de experiências através da Organização Internacional da Francofonia (OIF). Ela satisfaz, por meio deste espaço que contempla 84 Estados e governos membros, os requisitos constantemente renovados da paz e da democracia, dos direitos e das liberdades, da prevenção das crises, da segurança humana, dos objectivos do desenvolvimento sustentável e da preservação ambiental. Ela ajuda a implementar diariamente programas, planos e estratégias desenvolvidos em acções multiformes promovidas por homens e mulheres convencidos e empenhados nos quatro cantos do planeta.

No plano geopolítico e económico, a Francofonia é assim o Norte e o Sul, o Oriente e o Ocidente. No plano cultural, ela representa o aspecto crioulo, a latinidade, o aspecto árabe, a negritude e muito mais outras identidades. No plano linguístico, a língua francesa prospera e se encaixa numa formidável mosaica de culturas e numa abundância de outras línguas testemunhando da sua vitalidade no mundo.

Presente em quase todos os sistemas educativos do mundo, ela é a segunda língua estrangeira a mais ensinada, língua segunda ou língua de ensino, bastante atrás do Inglês, certamente, mas longe à frente de todas as outras. De acordo com o Observatório da Francofonia, mais de 125 milhões de alunos e de estudantes frequentam assim um ensino em língua francesa ou aprendem-na como língua estrangeira.

Em Túnis, em 2020, Angola deverá apresentar a sua candidatura à OIF na qualidade de membro observador. Com cerca de 20% de falantes no país, o francês possui o seu lugar e continua a caminhar ilustrando por ocasião de encontros, de intercâmbios, de discussões e de reuniões, mas também de programas de televisão ou de rádio que representa um vector de comunicação que faz parte da vida pública e económica de Angola. Tal como no resto do mundo, a língua francesa em Angola favorece os intercâmbios interculturais, o fluxo de ideias e o agrupamento de interesses ao benefício do desenvolvimento económico e do capital humano.

A recente atribuição do “Label FrancEducation” às escolas públicas angolanas da rede Eiffel demonstra que Angola se posicione igualmente na modernidade.

Primeiras escolas a adquirirem este reconhecimento num meio lusófono em África, a rede Eiffel ministra em Ondjiva, Malanje e Caxito disciplinas do currículo nacional em língua francesa. O francês é igualmente em Angola uma língua leccionada na Alliance Française enquanto língua estrangeira mas também como língua de aprendizagem no Liceu francês de Luanda e no sistema educativo angolano.
Para resumir e concluir: a nível mundial, a língua francesa é a 4ª língua da Internet, 3ª língua dos negócios, 2ª língua de informação internacional nos meios de comunicação, 2a língua de trabalho para a maioria das organizações internacionais e 2ª língua mais aprendida no mundo. Ela representa um dos mais seguros fermentos da diversidade cultural cujos reconhecimento e promoção, há vários séculos, são garantias de um diálogo inclusivo e de mediação entre as nações e as populações.

Para o ilustrar, e porque a língua francesa continua a ser uma língua do passado, do presente e do futuro, o Liceu francês de Luanda organizou durante as celebrações deste mês da Francofonia um concurso de eloquência. Esta arte oratória exige dos candidatos uma clareza de elocução, uma riqueza de argumentos e de língua mas também um alcance do público pelo tratamento dum assunto aberto à reflexão. Se achar por acaso que se trate de um exercício reservado aos alunos franceses num Liceu francês, reconsidere! Nos 500 liceus franceses pelo mundo, a maioria dos 350000 alunos são de várias nacionalidades, os Franceses representando menos de 30% dos efectivos. No Liceu de Luanda, os alunos angolanos representam 58% dos mil alunos que aí estudam actualmente.

O terceiro lugar deste concurso de eloquência foi atribuído a um aluno Búlgaro e os dois primeiros a alunos Angolanos! Ironia do destino, nenhum Francês participou no concurso…

Léopolod Sedar Senghor não estava enganado quando desejava que a língua francesa se tornasse a matriz possível duma civilização da universalidade.
Pela sua história e a sua vocação, a língua francesa está aberta às diferenças e quando ela entra em contacto com demais línguas e culturas, ela tende a promovê-las e a fecundar. Ao adoptar o francês como língua de cultura, os candidatos do concurso de eloquência do liceu francês de Luanda souberam explicitar valores universais nas formas diversificadas abrindo sobre a alteridade e a identidade cultural. O uso que eles fazem da língua francesa já os torna diferentes e faz deles, hoje e no futuro, cidadãos universais.

Sébastien VITTET, Chefe do Serviço de Cooperação e de Acção Cultural da Embaixada de França

Atualização : 03/05/2019

Princípio da página